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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os Primórdios do Desenvolvimento Emocional - WINNICOTT


No quadro de sua teoria do desenvolvimento emocional, Winnicott (1945/1978) enfatiza que no princípio o bebê não constitui uma unidade em si mesmo. A unidade corresponde a uma organização entre o indivíduo e o meio ambiente. A base da saúde mental é estabelecida nos primórdios da infância pelo provimento de cuidados dispensados à criança por uma mãe suficientemente boa. O bebê depende da disponibilidade de um adulto genuinamente preocupado com os seus cuidados, isto é, que possa contribuir para uma adaptação ativa e sensível às necessidades da criança, que a princípio são absolutas. Portanto, a psique só pode ter origem dentro de um determinado enquadre, dentro do qual a criança pode gradualmente vir a criar um meio ambiente pessoal, que a capacitará, mais tarde, a se desembaraçar do mesmo. Para superar esse estado inicial de dependência e atingir a independência, o meio ambiente criado e subjetivado pela criança transforma-se em algo suficientemente semelhante ao ambiente percebido. Essa é uma etapa especialmente delicada do desenvolvimento e de seu sucesso depende o estabelecimento da saúde ou da psicose.

Winnicott (1952/1978) parte do ponto de vista de que a aquisição saudável da posição depressiva no desenvolvimento emocional pressupõe, além de um cuidadoso manejo do desmame, um desenvolvimento anterior adequado. Para compreender as psicoses, precisamos remeter a esses estádios mais primordiais da psique. A desilusão, para Winnicott (1952/1978), é um fenômeno mais amplo que antecede ao desmame. Enquanto o desmame implica uma alimentação bem-sucedida, a desilusão está relacionada ao fornecimento adequado de "oportunidades para ilusão". Ou seja, a mãe deve inicialmente fornecer ao bebê a ilusão de que o que ele cria está mesmo lá para ser encontrado.

O desenvolvimento saudável está relacionado ao estabelecimento de uma tendência à redução dos estados esquizóides nos momentos iniciais da vida, quando o bebê está sendo gradualmente introduzido à realidade externa. Para Klein (1946/1982), o amor e a compreensão materna são capazes de reduzir os estados de desintegração que a criança normalmente vivencia. Winnicott (1952/1978) avança por essa trilha, mostrando a necessidade de uma mãe-ambiente que exerça uma função altamente especializada no início do desenvolvimento. A dedicação materna, tanto do ponto de vista físico (através do holding) como psicológico (através da relação empática e da adaptação sensível às necessidades do bebê), funciona como uma espécie de membrana protetora que viabiliza o isolamento primário, fundamental para que se articule um espaço psíquico.

Em outras palavras, através de uma adaptação ativa às necessidades da criança, o meio ambiente a torna capaz de permanecer em um estado de isolamento imperturbado, ocupando um espaço em que ela possa desenvolver sua vida de fantasia – um mundo secreto sentido como só seu, onde mais tarde vai se alojar um aparelho psíquico e uma organização dos processos de pensamento. O bebê, que não tem consciência desse suprimento por parte do objeto, entrega-se à fruição de um movimento espontâneo. Se tudo correr bem, o meio ambiente é descoberto, sem que haja uma perda do sentido de self.

Quando, entretanto, ocorre uma adaptação falha às necessidades da criança, e isso a obriga a reagir a essa experiência – sentida como invasiva –, o sentido do self se perde. A criança se afunda no não-senso, isto é, na impossibilidade de atribuir significado, nomear e organizar as experiências sensoriais e o próprio corpo, devido à fenda profunda que o atravessa. Nesse caso, a criança reage a essa experiência traumática retornando ao estado inicial de isolamento.

À medida que se reitera a experiência de uma adaptação não suficientemente boa, começa a ser produzida uma distorção psicótica da organização meio ambiente-indivíduo. As relações com os objetos produzem, sucessivamente, a perda do sentido de integridade do self, de modo que, para recuperá-lo, o indivíduo é obrigado a recorrer cada vez mais ao retorno ao isolamento primário. Essa operação vai adquirindo um caráter crescente de organização defensiva como repúdio à invasão ambiental. O self pode ser esmagado no espaço da realidade que ele nunca alcança e da subjetividade que carece de sentido.

O fracasso ambiental nesse ponto do desenvolvimento acirra o potencial paranóide. O bebê se vê obrigado a se defender de intensas ansiedades paranóides, e para tanto organiza defesas igualmente vigorosas. Além disso, recolhe-se para seu próprio mundo interno (introversão patológica), um mundo que ainda não está bem organizado. Para se livrar da perseguição do ambiente, deixa de adquirir o status de unidade, "renunciando" ao compromisso de crescer e conquistar sua própria autonomia.

Essa é a versão pessoal que Winnicott (1952/1978) dá para o conceito de posição esquizoparanóide descrito por Klein (1946/1982). Nela introduz, contudo, uma diferença fundamental em relação ao pensamento kleiniano, que ele não deixa de acentuar: é o fracasso ambiental nos primórdios do desenvolvimento que leva à edificação dessa organização defensiva, e não um suposto impulso de auto-aniquilamento, um sadismo destrutivo inato ou qualquer tendência que possa ser atribuída à hereditariedade (loparic, 1996). Nesse ponto, podemos detectar a dissensão de Winnicott (1945/1978; 1952/1978) em relação à importância que Klein (1946/1982; 1957/1974) atribui à herança filogenética, aos precursores do ódio e aos prenúncios da inveja, como constituintes da matriz de impulsos, defesas e ansiedades primitivas. Segundo Loparic (1996), para Winnicott esses fenômenos não têm raízes em profundezas oceânicas, nem são tão inevitáveis assim na história dos seres humanos. Parafrasendo a famosa frase atribuída ao poeta francês Paul Valéry, também para Winnicott "o mais profundo é a pele".


FONTE: Winnicott, D. W. (1983). Enfoque pessoal da contribuição kleiniana. Em D. W. Winnicott (Org.), O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional (pp. 156-162). Porto Alegre: Artes Médicas (Original publicado em 1962)

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